segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Clarete

Clarete chegou cansada a sua casa. Esquentou um chá e bebeu enquanto comia algumas bolachas. Trocou de roupa e ficou de meia sentada no sofá assistindo Friends. De repente pensou e foi a casa do seu vizinho:
- Boa noite. - disse ela sorrindo.
- Boa noite. - respondeu ele.
- Está ocupado? - como ela viu que ele não respondia ela já foi entrando.
- Bem, é que eu já ia dormir. - recuou ele.
- Como assim? - disse ela.
- É, então, eu ia dormir, sabe não tenho dormido muito bem esses dias e decidi dormir mais cedo. - explicou ele meio cauteloso.
- Eu não entendo, quando estou cansada do trabalho, depois fazer hora extra, chego meia noite em casa e você me chama para vir aqui. Eu venho volto tarde e acabo indo dormir lá pelas duas horas da madrugada. - ela retrucou impulsivamente.
- Mas você está com algum problema? - olhou-a fixamente.
- É... não. - disse meio contrariada.
- Hummm. - murmurou ele sentando no sofá.
- Nossa, esqueci algo no fogo. - gritou ela ao mesmo tempo que saia correndo pela e não voltou mais aquela noite ao apartamento do seu vizinho.
Talvez sua verdadeira necessidade era dizer algo áspero a ele e extrair alguma verdade dele ou de si mesmo. Porém, só conseguiu um motivo para ir dormir cedo também.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Depois de zerar games e escrever romances


Estefan passou todo ano jogando videogame entre suas atividades do dia a dia. Mesmo lhe faltando tempo para suas obrigações, ele reservava momentos para o lazer digital. Fazendo que ficasse cada vez mais obcecado em passar por todas aquelas fases surreais de um jogo sem sentido algum. De certa forma, cada ponto ganho lhe trazia uma esperança, uma motivação para continuar jogando, uma motivação para acordar de manhã com ânimo para trabalhar. É surpreendente, pois aquilo que depois que cumprisse não lhe traria nenhum benefício material, aliás ele mais perdia ao tempo e dinheiro do que ganhava. Mas ganhava em bem-estar e em tranquilidade. O jogo cotidiano ainda lhe trazia um convite a sociabilidade que era pouca para ele, pois era muito reservado. Embora ele não ligasse muito em compartilhar seus feitos, isso acabava acontecendo naturalmente como parte do processo de se jogar, as vezes era útil para conseguir alguma dica de como passar aquela fase que parecia impossível. Tampouco ele gostava de jogos online onde podia conviver com pessoas a todo momento digitalmente falando.
De fato, videogame não era um meio e sim um fim. Porém, talvez isso fosse mais para sua cabeça, porque sabia que jogando vivia um mundo paralelo a de sua rotina de professor de informática. Embora seu trabalho fosse também relacionado ao mundo digital, lhe dava pouco prazer, mas era o que sabia fazer bem, ensinar as pessoas a viverem nas redes nos bits. Por vezes, encontrava alguém com as mesmas habilidades que as suas e trocava alguns momentos de conversas sobre como era emocionante a solidão conjunta a eletrônicos. Nessa sociedade dos jogos também havia mulheres, algumas com as quais se relacionou, pensava que muito provável iria casar com uma jogadora. Sempre acontecia uma paixão de verão pela cosplay do último que evento que fora para comprar aqueles jogos raros. Não via nada demais nos eventos que frequentava como alguns adolescentes os viam.
Bem, agora estava pensando em prestar uma graduação. Nesta época da sua vida os jogos o interessava menos. Procurava um desafio maior para si mesmo. Através dos sites com que compartilhava informações com outros jogadores, se interessou pelo estilo de jogo RPG, no qual as pessoas desempenhavam uma função no jogo, vivia o personagem. Esse possível jogar RPG tanto com tabuleiro tanto pela internet. Assim, começou as escrever pequenas ficções para basear os jogos. Agora precisava se reunir com os jogadores frequentemente, as vezes pessoalmente e outros online. O ambiente desses jogos em sua maioria eram vilas medievais com alguns elementos fantasiosos de mitologias antigas. Por mais que a maior inspiração para criação dessas histórias fosse o conhecimento de lendas e livros antigos, uma coisa o interessava cada veze mais e era constante fonte de inspiração. A medida que foi convivendo com as pessoas dentro desses jogos e na faculdade, foi acrescentando em suas estórias parte da personalidade das pessoas que conhecia. Assim começou a reparar nos hábitos até de desconhecidos. As suas ficções estavam além do que necessitava seus jogos e não sabia mais o que fazer com elas, através de sua faculdade de jornalismo viu que podia se tornar um escritor.
Sua vida agora tinha vários possíveis caminhos a seguir, mas alguns destes em direções opostas. Pelo haveria de tomar algumas decisões difíceis e conciliar atividades e pessoas divergentes. Começou a namorar uma garota do teatro que se encantava com as suas criações, porém não gostava nada do mundo digital. Ele, por mais que tenha mudado, ainda não gostava do palco e nem da exposição excessiva. Esse romance estava para se tornar uma grande sociedade com benefícios mútuos, e com possíveis conflitos entre os dois também. Percebia agora que a vida o levava para um caminho de realizações, ainda que estas vinham com a necessidade de abandonar conquistar passadas. Não sabia se isso era uma evolução ou uma metamorfose. Neste momento ele precisava de balancear as coisas, e decidiu que passaria certa parte do seu tempo desligado do mundo para deixar o mundo agir nele mesmo, perdendo o controle da sua vida e apreciar um pouco da viagem que estava fazendo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Como pensei escrever no facebook a partir de Marcel Proust

Emoções passam depois de tanto tempo fazendo a mesma coisa, pensando no mesmo objetivo. Não sei qual dos meus objetivos cumpri. Às vezes penso que o pior é depois de ter cumprido não sentir nada em especial. A gente volta ao lugar que esteve e sente muito bem mesmo que quis fugir dali no passado o mais distante possível.
Carlos ouvia seus discos do Pink Floyd porque se identificava com aquela música tão enigmática. Para ele tudo era muito claro, pois além de entender o que o compositor queria dizer através da letra, a melodia falava por si só. Sentia-se único e ao mesmo tempo um tanto solitário, o fato era que poucas pessoas tinham o mesmo gosto que o seu. Com isso não tinha com quem conversar sobre seus sentimentos ou opiniões sobre muitos assuntos. Caminhava sozinho até o centro da sua cidade e se dirigia a certa praça.
Ele gostava de ir aquela praça, pois era razoavelmente movimentada lhe trazendo segurança. Mas o local em que se sentava era mais reservado, tornando o ambiente mais propício a sua leitura. Sentava-se num banco a beira de uma fonte, ele gosta muito da água. Não sabia se ia nesse local com a esperança de encontrar alguém que perguntasse sobre o que lia ou pra estar em contato com o ambiente urbano que tinha pouco que seja de natureza também. Seu sonho era ler numa floresta, a ideia dum local cercado de árvores o encantava. Ele tinha um receio se seria viável permanecer certo tempo numa floresta, se poderia haver lá algum animal que o incomodasse bem, mas tinha esse sonho.
Um dia Carlos pensou em algum dos poucos locais que ele gostasse de encontrar pessoas tendo em vista que o fascinava locais mais solitários como as tais florestas, desertos, campos e alguns locais urbanos. Pensou que talvez uma livraria ou um café que lhe agradasse, isso lhe conferia demasiado requinte. Pensou agora se não houvesse locais mais convencionais.
Esse local poderia ser um bar em que pudesse sentar numa mesa para olhar a rua. Melhor ainda se fosse numa cidade litorânea que pudesse contemplar o mar. Foi ao bar que ficava próximo a sua casa, pediu uma cerveja para que pudesse ficar ali por algum tempo. Como o local estava um pouco cheio, um senhor pediu para dividir a mesa para sua cerveja também e poder fumar, visto que no interior do bar não podia. Conversaram poucas coisas, o senhor falou que gostava de ir ali porque era um lugar tranquilo e a cerveja até que era barata. Carlos disse que saiu para dar uma volta e acabou decidindo beber por ali.
Esse acontecimento lhe rendeu um conhecido, apesar de poder conversar com ele sobre as músicas que escuta ou livros que lia podia ao menos falar sobre assuntos do cotidiano ouvindo a opinião de alguém.
A rotina mostra que acumulamos muito conhecimento sem perceber. Dos acontecimentos banais e histórias que ouvimos vamos construindo toda uma sabedoria que nos auxilia em algum momento. Muitas vezes pensamos em construir nosso intelecto em momentos específicos, porém tem sido extramente necessário quando achamos que estamos perdendo tempo.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Chocolates na vitrine

Passando pela rua principal numa tarde fria você vê a vitrine chocolates deliciosos. A mais fina e aprimorada coleção de bolos e bombons, misturando o doce com o amargo. O desejo é enorme por prová-los mas, eles estão além do seu alcance.
Passando pelo parque vendo os cachorros correndo e desejando ter sua energia. Tendo energia de escrever um poema.
Voltando do trabalho vendo os carros correndo pensando numa longa viagem para o norte. Carregando na mochila alguns livros.
Jantando sozinho e olhando para o céu la fora com vontade de ver o eclipse.
Andando pelo shopping contemplando um tênis que poderia servir para correr numa partida de algum esporte que gostava.
Jogando pedras no rio querendo mergulhar mas a ponte é muito alta.
Indo para o trabalho molhado porque esqueci o guarda chuva em cima da mesa. Correndo junto a marquise e as pessoas se protegendo da chuva rindo daquela manha cinzenta.
Caindo no sono e esquecendo de ler aquele livro.

Do alternativo excêntrico

Antigamente criava uma imagem do alternativo excêntrico caminhando em busca de algo, para pensar, ou para só andar. Cortou o cabelo, pensou que não era mais jovem para esconder seu rosto. Não queria mais impor uma personalidade. Nunca teve muita aptidão nos contatos sociais, sempre estragava as amizades pelo exagero ou pela ausência, não sabia o que fazer e nem aonde ir, só sabia quando não gostava, quando era tarde demais. Ao contrário de sua juventude, agora ele costuma usar os vícios com moderação. Isso pode ser resultado de outra fase de viver ou uma nova vida dentro de si. Escolhas ruins trazem experiências interessantes e escolhas melhores.
No verão a cidade ficava cheia de pessoas e as ruas iluminadas, os amigos apareciam e a bebida também. Era uma diversão saudosista quando se juntavam no fim do ano e depois ficava uma ressaca. Sempre se espera acontecimentos mágicos das datas especiais e com frequência aconteciam desilusões fantásticas. A velha tristeza parece uma tradição do natal e muitas vezes até agradável.
O clima mágico do natal nos países nórdicos é completado com o frio, então no hemisfério sul os meses de junho e julho tem certa fascinação. Nessa época se sentia mais confortável, pois normalmente é muito quente. A solidão das ruas frias combinava com tragos de cigarro e uma bebida forte. Em sua introspecção procurava viagens loucas ou se arriscar pela cidade. Não havendo divertimento o que sobra é esvaziar nossa mente com algo produtivo ou com qualquer passatempo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Y

Eu penso que tudo pode ser resolvido facilmente. Entretanto, você precisa resolver senão tudo irá ficar do mesmo jeito. De fato, isso não é fácil de ser compreendido e aplicado, é preciso muito treino e passar por muitas provas. De vez em quando, lembro de muitos fatos da minha infância que me fazem sentir mal e pensar que sempre vou voltar ao mesmo. Eu sinto que as coisas parecem não sair do lugar porque no passado não deu certo. Porém, tudo que aconteceu me fez perceber coisas muito importantes  na prática, estou tentando entender qual sentido meu passado faz para mim.
É tão difícil olhar para esse passado como para mim mesmo, por isso tento me imaginar sempre em algum personagem fictício ou num mundo ideal. Consequentemente, fico desanimado quando não satisfaço meus desejos reais. As vezes, é difícil entender quais são meus reais desejos, mas eles acabam se mostrando através de alguma tristeza ou desconforto. Um desafio é sentir confortável na maior parte dos lugares, não se sentir vigiado ou julgado, isso sempre acontece. Uma desafio maior ainda é demonstrar minhas emoções tanto as boas quanto as ruins. É difícil dizer de maneira objetiva que alguém ou algo não me agrada e me irrita profundamente. Tanto quanto, é difícil demonstrar realmente gostar de algo ou alguém, a insegurança sobre os sentimentos dos outros também é muito grande em mim.
Eu imagino que isso não seja só uma sensação minha, acho até que é muito difícil para a maioria das pessoas, principalmente homens, demonstrar suas emoções. Por mais liberal que as pessoas possam pensar que esteja o mundo, eu acho que as pessoas ainda estão apegadas a muitos valores tradicionais que as limitam a muitas coisas ou a fazer se sentir culpadas. Porém, não creio que as tradições sejam um grande problema, se conseguirmos raciocinar quais objetivos de cada hábito de um povo existir poderemos nos sentir melhor. Sinto que este texto é muito direto e isso tem sido uma coisa que fiz pouco na vida, senti uma necessidade de mostrar algo bem claro. Apesar de que lendo os meus textos mais antigos percebi que dizia muitas coisas de maneira subjetiva e insconcientemente. Ao mesmo tempo me dei conta como foi torturante tentar dizer algo da maneira mais indireta possível, acabava me deixando bem insatisfeito, mas acredito que assim seja o processo. Obrigado.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mar

Mergulhei e senti de todos os lados a água fria, aos poucos meu corpo foi se acostumando com a temperatura e me senti bem ali. Percebi que não se chegava ao fundo tão rápido, que a água determinava limitava os movimentos e enriquecia as sensações. Quando se chegava ao fundo, via sempre coisas únicas que fascinavam, mas logo tudo passava e aumentava a ansiedade de voltar a estar lá. Com o tempo percebi o tempo do mar e foi acostumando a respeitá-lo e ficando com a marca do seu sal. Mas sempre era pego de surpresa, e ao sair molhado da praia percebia que amanhã começaria tudo de novo. Ja não pensava mais em tempo e nem sentia mais obrigação de velejar, muitas vezes o mar só estava em quadros no meu quarto, ou num oceano de emoções. Meu contato com a água sempre foi volúvel, uma paixão  que marca, que dói e que volta. Escondi minhas intenções e mergulhei muitas vezes a noite, compartilhei minha solidão ou lhe usei de pretexto a algumas companhias. Não queria tornar o mar poético, pois seria sim sedutor. Quis ensinar a lição a outros, mas sabendo que seria em vão. Tinha necessidade própria de compartilhar o conhecimento dos perigos que a vontade nos causa, mas sabendo que todos tinham direito de correr o perigo de sonhar, de arriscar a se afogar, não posso controlar a sorte de outros e também não ficar agustiado por temê-la, então tive de aprender a dividir o mar.