quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Mar

Mergulhei e senti de todos os lados a água fria, aos poucos meu corpo foi se acostumando com a temperatura e me senti bem ali. Percebi que não se chegava ao fundo tão rápido, que a água determinava limitava os movimentos e enriquecia as sensações. Quando se chegava ao fundo, via sempre coisas únicas que fascinavam, mas logo tudo passava e aumentava a ansiedade de voltar a estar lá. Com o tempo percebi o tempo do mar e foi acostumando a respeitá-lo e ficando com a marca do seu sal. Mas sempre era pego de surpresa, e ao sair molhado da praia percebia que amanhã começaria tudo de novo. Ja não pensava mais em tempo e nem sentia mais obrigação de velejar, muitas vezes o mar só estava em quadros no meu quarto, ou num oceano de emoções. Meu contato com a água sempre foi volúvel, uma paixão  que marca, que dói e que volta. Escondi minhas intenções e mergulhei muitas vezes a noite, compartilhei minha solidão ou lhe usei de pretexto a algumas companhias. Não queria tornar o mar poético, pois seria sim sedutor. Quis ensinar a lição a outros, mas sabendo que seria em vão. Tinha necessidade própria de compartilhar o conhecimento dos perigos que a vontade nos causa, mas sabendo que todos tinham direito de correr o perigo de sonhar, de arriscar a se afogar, não posso controlar a sorte de outros e também não ficar agustiado por temê-la, então tive de aprender a dividir o mar.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

A cor das pérolas

Estava ela a andar pelas ruas do centro de sua cidade com saia lápis preta, um blazer de lã xadrez e uma echarpe branca de cetim. Passou pelo starbucks e comprou um café e foi bebendo no caminho ao trabalho. Quando chegou em sua sala organizou uns processos e despachou o que pode, queria ir embora logo mas ao mesmo tempo não tinha o que fazer depois do trabalho, por isso sua pressa era sem fundamento, mas também aquilo não a divertia depois de uma semana inteira mexendo com burocracia jurídica. Guardou suas coisas, despediu de algumas pessoas e foi embora. Andando com muita pressa quase esbarrando nas pessoas ou sendo esbarrada pelos outros talvez com mais pressa ainda. Quando chegou no metrô sentou e buscou um livro em sua bolsa, de repente viu na etiqueta de sua bolsa escrito cor branco nacarado. Pensou o que seria nacarado, pesquisou no dicionário do seu celular e viu que se tratava da cor das pérolas. Apesar de gostar de algumas jóias ela nunca tinha reparado muito em pérolas, achava-as muito clássicas demais. Leu algumas páginas do seu romance pós-moderno, gostava da irrealidade tão concreta da ficção. Achava a rotina superficial demais. Havia também desistido de poetizar a vida e queria só ser previsível no que restava desse dia. Chegou em casa e fez um belo macarrão para si mesma, aproveitava sua vida solitária enquanto podia ser chata só consigo mesmo ou beber uma taça de vinho branco sozinha. Atendeu um telefonema de amigos e parentes antes de dormir, isso fazia a sentir que ainda era um ser humano, e talvez melhor também. Regou suas plantas que por felicidade ainda estavam bem apesar de não ser tão atenciosa com elas. Começou a fazer mil planos para o fim de semana mas acabou dormindo.

terça-feira, 17 de março de 2015

Preferir contradições?

Estar seguindo uma direção, saber bem como quem você é. É assim que todos vivem, seja numa cidade pequena isolada praticamente do mundo numa metrópole com múltiplas conexões e relações socais com todo o tipo de pessoas. O garoto e sua juventude, com sua visão bem idealista de tudo, surfava no status quo, sabia o que fazer e se afirmar negando seu ser. Sabe quase nada de política, na verdade sabe muito, um prazeres da alma pós-moderna é mostrar não saber de nada, não ter certeza de nada, passividade poética e discussão por assuntos banais, descarregar fúria em banalidades ou objetivos não reais tipo jogos de futebol, lutas livres ou masturbação, não que não tivesse pseudo-namoradas. O herói pós-moderno, pós-anos2000, pós-orkut... Um herói, ou um ídolo, ou um padrão comportamental, uma experiência social. Saber muito sobre algo não determinava solução para sua vida ou satisfação por isso fingia que não entendia e vivia de acordo com que pensava ás vezes, muitas acabava desviando, não se sabe se por suposta contradição ou pelos instintos. Tinha uma relação tinha amigos que passava do limite entre a heterossexualidade e a homossexualidade, porém de forma consciente, de que brincava com o amor, que tinha pelas pessoas, ou do amor que queria compartilhar e viver, que não conseguia carregar consigo, mesmo assim já fora chamado de homofóbico, estranho para ele, não sabe se é ignorante ou mal informado. Decidi estudar, fica sem trabalhar, vira um jovem sem rumo, mesmo com mais informação do que nunca. Decidi trabalhar, de tanto se conscientizar em ter conhecimento e evitar futilidade e hedonismo da sociedade da informação decidi satisfazer seu, faz academia todos os dias, usa brinco e tem cuidados estéticos, acabou sendo identificado como mais masculinizado mesmo entrando no universo dominado pelas mulheres. Arranja um trabalho braçal, repor estoques de supermercados, é o primeiro êxito de um universitário em administração no setor de logística. Num trabalho hétero-normativo tem seu primeiro amigo gay, do mundo gay descobre que definir alguém como ativo ou passivo é tão fácil quanto definir o partido dos trabalhadores com esquerda ou direita. Imagina ele que isso tudo ele poderia ter vivido no município de Araripe ou no bairro da Bela Vista, mas estava em Boa Vista. Ainda sobre política foi chamado de reaça ao mostrar um cd revolucionário do Lobão que ganhara do sua namorada que foi para o Paraná, lembranças fazem nos fazer a melhor vista de um paisagem, por mais cinza e triste. Sua vida mudava as regras sempre que pensava saber como viver ou se acostumar a rotina, sempre tinha opinião firme em tudo até se pegar fazendo outra coisa, nunca pensou comer macarrão ao mesmo prato de arroz e feijão, sentia isso um pudor. Pudores que como em outras coisas lhe constrangiam e o atraiam. Atração levou sua vida de paixão em paixão.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Kennedy

Salão festivo cheio de cores, de humor, sabores, bebidas. Risos, alegria e tédio preguiçoso. Mesmo assim não estava nem um pouco alegre ou contagiado. Aquele clima, de estação quente, de sorriso contido desenhado na face, o dele de cara distante. Com muito sono da vida, andando pelo local, fazendo suas obrigações, aliás tudo queria era isso obrigações a fazer, ser necessário prestativo, pois não queria estar a lazer ali como todos estavam, não que não gostasse das pessoas ali, talvez só estivesse chovendo por dentro, o que era natural, o tempo muda a todo tempo. Queria estar dormindo, talvez se estivesse numa cama, não estaria, só tinha aquele sentimento de fazer alguma outra coisa que provavelmente não faria, ainda bem que estava ali então, perfeito, estava muito feliz dessa maneira: chuvoso, entediado e com sono, ainda bem que bebera café algumas horas antes. Ainda bem que caminha em parques e praças algumas semanas antes. Estava na verdade afundando nas suspeitas de suas não habilidade e em ser ou querer nada, ou de estar tudo meio errado. Tinha a sensação de seu lugar comum estar muito longe dali, talvez em outra dimensão ou outra época, tudo lhe parecia errado, anti-ético. Estava apenas a apreciar o movimento, o decorrer do dia (dos dias), do mundo andando por si só como se estivesse fora deste e tivesse deixado o roteiro de sua vida engavetado, como se tivesse tomando e fazendo barulho com canudinho caldo de cana no sol a pino das duas da tarde no meio do expediente. Tanto que este personagem deveria ter mais ação para um conto, pois se estivesse num filme este só teria uma cena com uma longa narração até aqui, ou na verdade ele estaria assistindo outro filme. Talvez ele fosse mais importante do que isso, mas o negócio era que estava meio desanimado demais para protagonizar algo, na verdade tem muitas pessoas que passam o dia inteiro andando de meia pela casa (dias importantes), porque isso seria ruim, talvez, depende da meia.
Seus pensamentos ainda tinham algo de prazer, de vivo, de florescente. Alguns sonhos ainda, na verdade realidades, supostas realidades, medo de seguir em frente, extrema cautela. Seu programa ideal de fim de semana era sempre substituído pelo que fosse mais seguro, não ousava mais,  apostaria só se valesse a pena, mas sem medo do dinheiro perdido, mas esse desapego mesmo assim não o faria correr atrás de algo que simplesmente não fosse a melhor coisa do mundo para si. Coisas impressionantes acontecem de forma ordinária, corriqueira, no meio de vários acontecimentos inúteis, inúteis porque o são visto assim porque alguém às vezes enganosamente. Ele tem de suas paranoias, de suas fantasias, que achar que tudo pode estar acontecendo por uma mágica razão que lhe satisfaz, uma ilusão quase bêbada. Mas às vezes as coisas acontecem estranhamente, talvez por acaso. Ele esperava que fosse centro da atenção de tal pessoa, mas esperava isso no meio de sua prepotência. Porém quando lhe fixado o olhar, imaginou ser normal, lógico, estavam olhando para ele, mas, fixou o olhar e ficou, ficou, e ele olhou, e queria mesmo olhar, e viu que isto estava fora até do que lhe havia previsto, ou imaginado. Naquele olhar se sentiu observado por dentro e ao mesmo não viu mais do que um olhar, olhar belíssimo, surpreso, mas nada mais. Mas era isso o que esperava e o que admirava, desde há muito não sentia essas pequenas sensações de tudo fazer sentido.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

prazer secreto

Olhar-te de longe, do escuro. Sua exibição não intencionada muito consciente, sua insatisfação com a aparência, estar na segurança da sua censura ou você da possível minha, do julgamento da expressão de descontamento cotidiano, de cansaço. O garoto prosseguia bem sucedido no seu projeto de vida de viver ao contrário caindo na mesmice, não fique triste, você ainda está na vanguarda, ainda é contemplado como uma forma de arte.Fidelidade sua que mantenho de tudo que não é corpo, que não é físico, quase uma coisa-em-si de Kant, um ideal de Platão.
Dos pequenos joguinhos perdidos, dos risos de prazer de pequenas crueldades que não me ferem ou ferem me com prazer. Satisfação irresponsável, vivência distante, consciente, sincronizada.
O artista contemplando a tal jovem, desperdiçou seu talento na eterna obra incompleta, incompleta física, por falta de uma parte, ou pelo tempo que não existiu para viver a o saber, aprender de sua existência, o prazer o desperdício, do não viver a não ser seu ideal, um enorme ineficiência. A eficiência para coisas fúteis e totalmente altruísta, não por bondade mas por não prazer em se ajudar.
Esse artista totalmente ideal, mas sua vida sendo um mecânico processo no qual não se aplica suas ideias, que só se multiplicam e se perdem, no outro mundo. Contemplando vidas muito mais vivas para si, que alimentam sua essência, lhe despertam o mínimo de talento que proporciona a vida.

domingo, 20 de julho de 2014

Sunshine

            Estar à espera do mais acontecimento que você deseja. E por isso deixou ele de viver e deixou o rio levar sua vida ou seu barco, esse rio que se pulasse se afogaria por não saber nadar então num barco não agradável navegou. Apreciando pelas janelas invisíveis mais bem existentes a paisagem que devia tanto tocar, mas impedido pelas conveniências, por saturno, pelos deuses, pelo destino ou por sua incapacidade, não importa, eis o momento simplesmente e que ele não consegue saí-lo.

            Agora está à beira do brilho intenso do sol que vai lhe aquecer e trazer sua vida novamente ou suas ilusões adoráveis e prazerosas isso que talvez ele queira ou que sabe que o não quer agora. Cada vez menos certo do que é verdade ou de que não precisa da verdade. Sentindo muito mais amor, amor menos doloroso, com uma sábia mulher uma vez disse: Eu acredito no amor. No amor hollywoodiano fantástico e avassalador ou no sublime amor francês, no amor passional italiano ou amor material brasileiro. Viu seus amigos num quadro e sua vida dentro de um museu visitado pela manhã, numa enorme solidão lhe cortava batia contra o rosto quando não sabe da onde vem o golpe, deslocado e desacordado. Mas essa solidão super útil para lhe fazer pensar sobre suas sempre ilusões, que se fossem nuvens ainda que não pudesse pegá-las ainda poderia vê-las, e não deixar de existir tanto quanto uma música. 

terça-feira, 11 de março de 2014

Humano depois de tudo

Sempre queremos ser melhores do que a nossa natureza, ser melhores do que um ser humano. Fazer mais do que nosso corpo permite, do que nossa mente aguenta. Queremos resistir o sono, seja ao dormir tarde ou ao acordar cedo. Tentamos comer mais do que nosso estômago pode aguentar e em alguns casos não comer quando deveríamos. Praticamos exercícios que desgastam nosso corpo além do limite como se fosse uma máquina, ou não fazemos absolutamente nada mesmo nosso corpo necessitando de um mínimo de movimento. Desenvolvemos atividades que possam nos trazer reconhecimento, satisfação e para isso ultrapassamos todos esses limites aí. Às vezes a capacidade de amar pode ir contra nossa natureza, quando nos auto-destruímos por alguém, ou quando negamos nossos sentimentos. Por mais que alguma das vezes tenhamos que escolher em nos sacrificar de uma maneira ou de outra, a maioria das vezes queremos ir muito além da nossa capacidade mesmo isso tendo uma necessidade. Temos uma necessidade natural de aventura, queremos correr riscos enormes por alguma realização ou pelo simples prazer. Jogamos alto, nos arriscamos e nos destruímos por vontade própria e pelo prazer. Isso tudo além do enorme esforço que a nossa rotina pode nos requerer de ultrapassarmos nossos limites. No final de tudo isso a conclusão é que somos humanos depois de tudo, porque no final, o atleta campeão, o gênio da matemática, o poeta amado, todos esses caem de sono no final do dia (isso quando não tem insônia, da mesma maneira ficam deitados em suas camas em algum momento esperando o sono vir como a criatura mais frágil da face da terra). A nossa necessidade de superar nossa natureza é também nos é natural, e vivemos nesse conflito de dominar e sendo dominados pela preguiça, pela gula, pelo carinho, pelo impulso, por falar da vida dos outros, por fumar um cigarro, beber uma cerveja, por negarmos nós mesmos em algum momento talvez escondido num padaria no outro lado da cidade. Pela nossas fraquezas descobrimos nossa humanidade, nossa igualdade e conseguimos enxergar o outro, enxergar a natureza das coisas, que se tem um limite, um limite da ação e um limite de ação.