quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Facilidades cotidianas

Um teste, uma desculpa, um pretexto, uma escolha aleatória para uma facilidade cotidiana. A rotina nos faz pessoas automáticas que executam as mesmas tarefas sem pensar. Uma pessoa que tem os mesmos desgostos automáticos e não ouve a opinião diferente da sua da pessoa que está a sua frente se esforçando para tentar lhe mostrar algo. Algo que nem ela mesma sabe, que ela esta tentando construir com você, esse momento de sabedoria, de descoberta, e você não presta atenção, não recua por um momento das suas certezas, das suas verdades relativizadas por Hegel.
O música toca a mesma canção em seus concertos, aquela única que fez mas sucesso, mas que menos lhe representa algo. Seus sentimentos profundos estão perdidos naquela faixa do álbum que toca e ninguém percebe. Talvez alguns a ouçam e pensem o que não quer dizer. Às vezes nossos pensamentos devem ser expostos mais claros, porém nem ao menos nós mesmos sabemos claramente o que sentimos, ficamos perdidos no significados daqueles sonhos mais confuso que um filme alternativo. Nossas emoções não se decifram de maneira racional e cartesiana. Nossas emoções muitas vezes são explicadas por dias de fúrias repentinas que nos prejudicamos ou naqueles momentos de tristeza que deixamos de ir naquela festa que queríamos tanto.
O cidadão que respeita os contratos sociais e a ordem estabelecida rejeita formalmente seus amores em nome da justiça e legalidade. Ele esquece dos seus sonhos e foca na execução de tarefas repetitivas no seu dia a dia, buscando a perfeição e banalização delas. Mas seus sonhos são sonhados à noite, disfarçados em meio a cavalos aparecem no meio dos carros de uma avenida movimentada e de repente está em outro país conversando em qualquer língua, nossos sonhos tão possíveis quanto queríamos que os fossem.

sábado, 21 de janeiro de 2017

Difícil de achar

Estou a procura daquele detalhe, daquela obra de arte que sinto essencial só quando a encontro. O belo cotidiano, o plastificado parecem esconder a verdadeira beleza natural. A essência solar é difícil de achar, pois o sábio carrega a luz coberta para que essa não cegue a quem não está acostumado. O garoto gostava do clima nublado e do barulho da chuva e do que não sabia descrever. Às vezes teve certezas fracassadas e amigos invisíveis.
Martin pensava poder controlar o tempo, pois quando estava chateado acontecia grandes tempestades e vendavais. Talvez o tempo o controlava ou era só uma coincidência. Gostava de se apegar a essas incertezas e era difícil conviver com o mundo exato e belo. O mundo maquiado, penteado, drapeado e chaveado. Deixara as janelas abertas que a chuva molhou seus móveis e apenas os secou e pensou se essa água os estragaria ou se só não gostava de ver as coisas  molhadas. Contemplou a tristeza como um estado de paz interior e quietude, talvez não fosse a tristeza em si e sim uma tristeza perto da euforia do mundo a sua volta. Se emocionou com os acordes de uma música que nunca ouviria mas que lhe completamente familiar. Amou as pessoas erradas e as certas, odiou a todos nos dias que estava cansado e dormia quando chegava do trabalho e ficava acordado de madrugada contemplando coisas só suas, pesquisando sobre história, arte e vidas.
Comprou chapéus e sapatos em um brechó e os usou muito pouco. Usou muito camisas xadrez, bebeu café pelas manhãs solitárias e gostou.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Um projeto para dar errado

Ofélia olhou pela janela de sua sala e viu que atravessando a parede havia um muro com arame farpado em cima dele. Pensou quantas paredes existiam ali para proteção, interrupção, contenção e controle. Quanta estagnação essas paredes geravam, como a enclausuravam, a desesperava e a machucava. Sentou no chão, embaixo da janela e sentiu a rigidez daquela parede que a segurava, pensou nela todas a situações que a imobilizava, pensou nas pessoas como paredes. Nas críticas, críticas, críticas que lhe adentravam a alma, que entravam pela sua boca e até o estômago e ali ficavam, pesando lá dentro.
Por cima do muro podia ver as pessoas que passavam na rua, essas pessoas não viam ela, não se comunicava com ela, esse muro bloqueava o contato. Ela gostava muito de andar em pontes, sejam que passem por rios ou por estradas, aquelas que têm peitoril vazado, que dão medo mas lhe possibilitam se conectar com o vazio. Nas pontes as pessoas se conectam, muitas vezes nos deparamos com uma pessoa vindo no sentido contrário, que divide conosco uma passagem estreita, que nos troca olhares, nos sorri, nos ignora.
Se lançou a um plano, uma vontade, um desejo que não tivesse sucesso. Queria algo não terminado por que estava com medo do sucesso. Decidiu pintar um quadro, de um muro, mal sabia pintar. Começou uma parte e parou, deixou jogado no seu quarto. Um dia colocou na frente da sua casa para que jogassem no lixo ou alguém o levasse; no outro dia não estava mais lá. Talvez tivera sucesso, alguém tivesse gostado ou apenas aproveitasse para reciclar o material. Viu que pintar não era para ela ou simplesmente não queria.
Começou então a montar um jardim no fundo de sua casa. Como tinha como objetivo errar, não se preocupou com nada e plantou alguns tipos de flores e plantas, sem ao menos saber como deveria proceder. Ao fim de alguns meses se dedicou as plantas que sobreviveram, foram poucas, mas pelo menos tinha algo para cuidar. Continuou cuidando mais ou menos daquele jardim, até que ficou bom, mas sem mais preocupações de errar ou acertar.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Garota inglesa

Aquele menino jogava pedras na árvore na tentativa de conseguir degustar algumas amoras que tivesse a sorte de apanhar. Ele e outros garotos faziam isso no intervalo da escola, isto lhe rendia como preço algumas manchas vermelhas em sua camiseta branca de uniforme escolar. Embora todas as amoras fossem doces, sempre haveria uma esperança que a próxima teria o melhor sabor que pudesse experimentar. Por vezes era difícil de perceber a fruta pendurada nos galhos, pois naquele horário do dia fazia sol e lhe ofuscava a visão. Mesmo assim o sabor de uma amora doce lhe era recompensador.
- Sabe Hugo, outro dia vi um filme de uma garota que morava em numa casa muito rica na Inglaterra e fugia de lá em busca de um rapaz que se apaixonara, mas se arrependia e acabava trabalhando para se manter até que descobrisse o verdadeiro amor.
- Mas quem iria largar uma família para ter que trabalhar para sobreviver?
- Bem, eu me pergunto se isso seria mesmo possível.
Bem, naquela época grandes questões não lhe ocupavam muito a mente pois eles tinham outros planos para o dia como escalar árvores, apostar corridas e observar os insetos.
Foi embora, no caminho de casa observava o batalhão da polícia que próximo a sua escola. Tinha certo fascínio por policiais e soldados, acho que seria aquela visão de infância que comparava uniformes as super-heróis. Passou na loja de doces e comprou chocolates e algumas balas, naquela época os doces eram realmente baratos. Chegou em casa e comeu seu almoço e depois ficou deitado olhando pela janela onde via o céu alguns aviões passarem. Na televisão passava o telejornal onde nenhuma notícia lhe tirara a atenção.

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Peixes 2 - Portugal

- Você está muito bonita Bárbara.
- Obrigada. Aliás, preciso comprar umas roupas novas, acho que estou há umas três coleções atrasadas.
- Você segue essas coisas?
- Não. - riu.
Ela tinha acabado de chegar a escola que dava aula, um pouco cansada pois teve que caminhar uns vintes minutos da sua casa. Havia dormido tarde pois recebera algumas amigas em casa e depois disso ainda preparou algumas coisas para aula. Esperava por uma mais aula desgastante. Não que não gostasse de dar aula, mas também não podia negar que as coisas fossem melhores um pouco. Entrou na sala observou os alunos e começou a preparar seu material enquanto esperava que as crianças começassem a se aquietar. Era sempre essa rotina, sabia que sempre tinha que dar um grito ou outro para fazer com que eles sossegassem.
- Professora, tinha alguma tarefa para hoje pois eu acabei me esquecendo.
- Bem, tinha, mas não tem problema.
A velhas desculpas de seus alunos, por melhores que fossem as suas notas sempre tinha uma desculpa na ponta de língua. A aula correu sem muitas emoções. Cumpriu seu dever em ensinar-lhe algo sobre matemática e ciências. Também fora bem sucedida em não entediá-los muito. Sabia que aula não era a coisa mais legal do mundo, pois pensava se até muitas vezes não queria estar naquela sala, imagine os alunos. Mas algumas vezes na cara de seus alunos uma alegria de estar ali.
- Alunos, já estão dispensados.
Os alunos foram saindo aos poucos, uns mais rápidos outros permaneceram mais tempo na sala. Ela em poucos minutos já estava em seu caminho para casa. Decidiu tomar o caminho mais longo na tentativa de ver algo diferente pelas ruas. Passou pela feira e comprou um pastel pois não estava como a mínima paciência para preparar algo para comer. Chegou em casa, seu gato recebera. Ela adotou esse gato de tanto ele ficar na sua porta pedindo comida. Mas por incrível que pareça no meio de tantas outras pessoas, talvez o gato tenha adotado a ela.

terça-feira, 8 de março de 2016

Peixes

- Olá senhor, porque tocar sempre esta música?
- Porque é a que eu sei tocar melhor e a que o povo mais pede.
- Mas é a que mais gosta?
- Não, você gosta?
- Não.
- De qual você gosta?
- Eu gosto de Beatles.
- Bem mais sempre você ouve Beatles?
- Ultimamente não, ouvia mais.
- Bem, então não quer que eu toque alguma outra?
- Mas que Beatles é algo que sei que gosto.
- E poderia ouvir algo novo também.
- Tudo bem, então toque alguma música.
- Bem, vou tocar uma que compus sobre a minha infância.
...
- Interessante, podia tocar essa mais vezes.
- É que as pessoas não gostam muito de ouvir coisas novas.
- É mesmo, parece que tudo é sempre a mesma coisa.
- Por melhor que a seja, algo que seja bastante repetido tende a incomodar.
- Porém nem sempre é preciso mudar, talvez se reinventar.
- Pois é, até porque nos faz bem carregar algo familiar.
- Pensando bem acho que as pessoas gostem de ouvir essa música que você toca porque lembra algo familiar.
- Pode ser, as músicas mais populares unem as pessoas de uma certa maneira.
- Sim, refletem também algo ultrapassado.
- Alguns chama de clássicos.
- Talvez eu só entenda isso quando estiver mais velho.
- Bem, Beatles é uma banda bem antiga, não é?
- É um clássico, não é.
- Talvez você ainda goste dessa música.
- Pelo menos irei lembrar desse momento.
- Boa sorte.
- Continue a animar as pessoas com sua música, bom dia.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Como fazer você mesmo

Este é um pequeno relato sobre a história de Johnny, um morador de uma cidade pequenina na região montanhosa mineira. Desde criança morava ele, sua mãe e um cachorro numa casa pequena próximo ao bosque da cidade. Ele era um garoto curioso e adorava ver as formigas no jardim ocupadas nos seus afazeres diários. Também ficava por muito tempo observando as plantas e imaginando o que elas estariam pensando. Gostava de fazer experimentos com fermento de bolo, adicionando água e vendo a reação que acontecia, ou seja, era fascinado pelos fatos da natureza.
Estava um dia em sua casa e havia algumas visitas que ele não conhecia.
- O que pretende fazer quando crescer? - perguntou a moça curiosa.
- Gostaria de ser um astrônomo. - respondeu ele de forma apaixonada.
- Mas você não quer ganhar dinheiro? - indagou a moça supresa.
Mal sabia essa moça que astrônomos ganham muito bem e muitos menos que ele não seria astrônomo. Como gostava da natureza mitas vezes ficava até tarde no bosque. Imaginava que estava numa floresta bm longe da civilização, que conseguiria viver ali com o mínimo de tecnologia possível.
A medida que envelhecia ia afastando desse seu lado mais selvagem e ia para um estilo mais urbano. Porém certa vez quando acampava com seus amigos se perdeu do grupo. Ficou isolado numa parte distante duma floresta real sem saber o que fazer. Era seu sonho que agora podia ser um pesadelo. Acho um local local que pensou ser seguro para dormir, de certa maneira estava com medo, não sabia do que e era exatamente esse o problema: o que poderia acontecer? A medida que ia adormecendo esqueceu seus medos e pensou na sensação daquela solidão que fazia lembrar da sua infância e da fascinação pelo universo e aquela era uma ótima sensação. Imaginou que ficaria ali por muito e ja pensava o que poderia conseguir para comer naquele local.
Ele nunca pensaria que seus amigos o achariam tão rápido, mesmo que tenha sido ao amanhecer. Ele estava feliz por estar a salvo mas uma certa tristeza havia como se sentisse que deixasse sua verdadeira casa.
Que bom ver vocês. - disse ele com um meio sorriso.
Bem, sorte sua termos achado você pois aqui é bem perigoso. - disse o chefe da excursão.
Prometo tomar mais cuidado. - respondeu ele obviamente.
Vamos embora? - indagou um de seus amigos.
É, vamos. - disse ele pensando que de alguma maneira levaria algo dali.